Há alguém no andar acima martelando coisas há uma semana e o céu é do jeito que eu sempre achei ideal: azul com nuvens brancas gigantes que trafegam rápido como carruagens ou como o próprio tempo que passa diante dos olhos.
Qual é a explicação pros espasmos no coração e os descompassos na respiração e a vontade miúda de chorar que dá e passa e dá e passa e dá e passa?
Eu sonhei com um mar cheio de ondas e a noite era fria e infinita, mas acordei e minha cama era quente e no meu caminho colocaram um tapete de jasmim.
Tabacaria-ao-inverso.
Tudo é bom e belo mas na casca vazia do meu tórax vive uma figura mitológica que gosta de brincar de marionete com o meu coração.
9.3.16
7.3.16
O desejo de ser extirpado de todo sentimento, como quem deseja se livrar de uma perna a mais para se tornar igual.
Tire isso de mim e eu não serei mais uma fonte de choramingos e questões; tire isso de mim e eu não serei mais fraca; tire isso de mim e eu serei mais próxima do ideal de gente.
O desejo de por os sentimentos abaixo por um ralo, silenciosamente. O desejo de não precisar dizer. E o eterno sentir-se idiota, ridículo, sem saber ser outra coisa qualquer que seja.
Eu queria encontrar um lugar pra mim, protegido contra indiferenças-punhaladas.
Tire isso de mim e eu não serei mais uma fonte de choramingos e questões; tire isso de mim e eu não serei mais fraca; tire isso de mim e eu serei mais próxima do ideal de gente.
O desejo de por os sentimentos abaixo por um ralo, silenciosamente. O desejo de não precisar dizer. E o eterno sentir-se idiota, ridículo, sem saber ser outra coisa qualquer que seja.
Eu queria encontrar um lugar pra mim, protegido contra indiferenças-punhaladas.
1.3.16
O mundo inchou! Sua pele fina transparente marca os contornos dos corpos que se espremem lá dentro. Num mundo inchado assim, ninguém é ninguém, tudo é nada.
Eu queria me sentar num tronco de carvalho velho e pensar na vida mas naquele tronco já tem gente e no outro também e ninguém tem tempo pra pensar mais na vida.
Eu queria que o mundo arrebentasse e os corpos fossem liberados no espaço sideral e ficassem cada vez mais distantes uns dos outros, cada vez mais rarefeitos até que um dia estivessem tão separados que para cada um só existisse ele mesmo e ele pudesse se olhar no escuro e ter tempo pra se pensar novamente - porque também o tempo lá passaria tão diferente! talvez o tempo lá não passasse.
Eu queria que o espaço pra gente existir se multiplicasse várias e várias vezes e as cores fossem o suficiente pra cada um ter a sua própria e cada um tivesse um nome pra si que ninguém mais teria: cada palavra seria ela sozinha pra significar uma coisa única, como todas as coisas são (únicas).
Nossos nomes são números em uma grande máquina registradora e significado não é mais importante e se fosse também não faria diferença enquanto não houvessem gentes capazes de ler importâncias...
No espaço sideral meu corpo se dissiparia como um dente de leão soprado, mas eu ainda existiria na memória de alguém como mais que um número: eu seria a soma das minhas atitudes, minhas expressões faciais e todas as coisas que eu já sonhei. Eu queria que houvesse uma palavra pra isso.
Eu queria me sentar num tronco de carvalho velho e pensar na vida mas naquele tronco já tem gente e no outro também e ninguém tem tempo pra pensar mais na vida.
Eu queria que o mundo arrebentasse e os corpos fossem liberados no espaço sideral e ficassem cada vez mais distantes uns dos outros, cada vez mais rarefeitos até que um dia estivessem tão separados que para cada um só existisse ele mesmo e ele pudesse se olhar no escuro e ter tempo pra se pensar novamente - porque também o tempo lá passaria tão diferente! talvez o tempo lá não passasse.
Eu queria que o espaço pra gente existir se multiplicasse várias e várias vezes e as cores fossem o suficiente pra cada um ter a sua própria e cada um tivesse um nome pra si que ninguém mais teria: cada palavra seria ela sozinha pra significar uma coisa única, como todas as coisas são (únicas).
Nossos nomes são números em uma grande máquina registradora e significado não é mais importante e se fosse também não faria diferença enquanto não houvessem gentes capazes de ler importâncias...
No espaço sideral meu corpo se dissiparia como um dente de leão soprado, mas eu ainda existiria na memória de alguém como mais que um número: eu seria a soma das minhas atitudes, minhas expressões faciais e todas as coisas que eu já sonhei. Eu queria que houvesse uma palavra pra isso.
25.2.16
Estava ali sentado no sofá, o corpo tendo se transformado em um balão de borracha humanóide cor de laranja tão inflado que já ultrapassava níveis toleráveis de transparência. Seu eu real se prostrava no fundo do balão, caído lá dentro patético, como uma uva passa inanimada. Há um momento repetitivo tipo deja-vu quando parece que você se desloca na velocidade da luz ao avesso e se comprime ali no fundo de si mesmo e só sobra o caroço. Você perde toda a habilidade de controlar seus movimentos ou de falar ou de acessar a lógica do seu cérebro propriamente. Você é um alienígena para você mesmo, pequeno lá no fundo, e o que os outros olham é a carapaça plástica que você mesmo não é capaz de ver ou acessar. Se explicar se torna doloroso-quase-impossível.
19.2.16
Súbito assombro antes de o dia ficar claro: uma sensação de navio naufragado que a gente abre o olho e vê de repente, uma sensação de achar uma bola de poeira ainda onde a gente havia escondido anos antes, uma sensação de ser olhada por cima de um muro invisível.
A curiosidade com aquilo que a gente tem medo é uma garrafada na cabeça que a gente mesmo se dá.
18.2.16
A gente sente uma brisa que desliza pelas pernas e sopra uma melodia no ouvido: uma menina que canta com batom vermelho e o olho cheio d'água.
A gente comprou um ticket de trem sem olhar o destino e agora a gente se lança a vapor rumo a um futuro nebuloso-fragmentado.
Tudo o que vem na minha cabeça é um homem prateado sem rosto e sem impressões digitais que me olha como se esperasse de mim qualquer coisa que seja que eu não sei nem imaginar o que possa ser.
Eu vejo pedaços de papel fino queimado de contorno incerto caindo do céu e acho que alguma coisa explodiu lá no alto mas não fez barulho nem teve importância... mas eu sei. Eu sei porque eu sinto os pedacinhos dos restos do que quer que fosse lá em cima entrando dentro da minha pele.
A gente sente um vento contínuo gelado cobrindo nossas costas como fosse um cobertor e a manhã é toda clara e toda branca, como se ela quisesse que a gente mesmo fosse lá e desenhasse o contorno das nuvens.
A gente comprou um ticket de trem sem olhar o destino e agora a gente se lança a vapor rumo a um futuro nebuloso-fragmentado.
Tudo o que vem na minha cabeça é um homem prateado sem rosto e sem impressões digitais que me olha como se esperasse de mim qualquer coisa que seja que eu não sei nem imaginar o que possa ser.
Eu vejo pedaços de papel fino queimado de contorno incerto caindo do céu e acho que alguma coisa explodiu lá no alto mas não fez barulho nem teve importância... mas eu sei. Eu sei porque eu sinto os pedacinhos dos restos do que quer que fosse lá em cima entrando dentro da minha pele.
A gente sente um vento contínuo gelado cobrindo nossas costas como fosse um cobertor e a manhã é toda clara e toda branca, como se ela quisesse que a gente mesmo fosse lá e desenhasse o contorno das nuvens.
17.2.16
Tenho que contar a história de uma casa que ainda não existe, uma casa cujo endereço foi escrito em tinta de silêncio. O tempo lacrou as entradas em um momento que não é nem lá nem cá e eu olho pras minhas horas e elas se comem umas as outras e me deixam de mãos vazias...
Eu sou um urso, uma fúria, um fiapo, uma idéia daquelas que a gente tem no banho e depois, por mais que tente, não consegue se lembrar.
A minha casa nova (que não existe) é um lugar onde a hera cresce solta e a madeira do chão submergiu numa camada grossa de poeira branca. A minha casa nova tem um furo no telhado que a natureza fez pra que eu pudesse ver a lua e não prorrogar isso jamais.
(Eu uivo uivo uivo e nunca viro loba, mas um dia eu vou virar.)
A minha casa nova (que não existe) é onde eu vou sentar pra construir máquinas feitas de suspiros, que no fim do dia vão desaparecer dentro de sonhos repetidos; é onde eu vou coletar formigas e alinha-las como me convier; é onde eu vou olhar por um buraco e ver o meu rosto inteiro lá do outro lado, muito sorridente, dizendo que nada foi em vão e que no fim das contas eu existi sim. Eu existi.
Eu sou um urso, uma fúria, um fiapo, uma idéia daquelas que a gente tem no banho e depois, por mais que tente, não consegue se lembrar.
A minha casa nova (que não existe) é um lugar onde a hera cresce solta e a madeira do chão submergiu numa camada grossa de poeira branca. A minha casa nova tem um furo no telhado que a natureza fez pra que eu pudesse ver a lua e não prorrogar isso jamais.
(Eu uivo uivo uivo e nunca viro loba, mas um dia eu vou virar.)
A minha casa nova (que não existe) é onde eu vou sentar pra construir máquinas feitas de suspiros, que no fim do dia vão desaparecer dentro de sonhos repetidos; é onde eu vou coletar formigas e alinha-las como me convier; é onde eu vou olhar por um buraco e ver o meu rosto inteiro lá do outro lado, muito sorridente, dizendo que nada foi em vão e que no fim das contas eu existi sim. Eu existi.
No canto do mato onde a coruja pia baixo discreta eu vi um moço ajoelhado como farrapo catando moscas dos cotovelos.
Esse homem-sombra muitas vezes refletia no abismo que era seu rosto a minha própria cara de sombra. Eu sou um ser sem nome.
Um encontro como esses muitas vezes salva: é preciso se ver para acertar a postura...
Outras vezes esses encontros partem: cacos de nós pelo chão úmido da noite.
Eu queria que o homem-sombra ficasse por perto porque seja lá o que ele é, o que ele faz, o que ele não faz e o que ele desrepresenta, eu ser-sozinho não sei ser.
Eu quero que a lua me coma de uma só vez e que meus farelos se deitem no céu com as estrelas.
Esse homem-sombra muitas vezes refletia no abismo que era seu rosto a minha própria cara de sombra. Eu sou um ser sem nome.
Um encontro como esses muitas vezes salva: é preciso se ver para acertar a postura...
Outras vezes esses encontros partem: cacos de nós pelo chão úmido da noite.
Eu queria que o homem-sombra ficasse por perto porque seja lá o que ele é, o que ele faz, o que ele não faz e o que ele desrepresenta, eu ser-sozinho não sei ser.
Eu quero que a lua me coma de uma só vez e que meus farelos se deitem no céu com as estrelas.
5.2.16
Há um certo segundo na sua vida, um segundo liso como um plástico, em que você passa a se identificar como um adulto. Isso mesmo, você agora é uma pessoa de verdade. Seus braços são braços, suas pernas são pernas, sua casa é uma casa, você tem copos, quadros, janelas e fins de semana. Mas em algum lugar, debaixo disso tudo, discretamente pulsando debaixo do piso de madeira, soprando um aroma de capim pelas frestas das portas, há uma esfera dourada que um dia você chamou de coração, de alma, de cosmos, de presença, sei lá!... uma esfera que era tudo: o bom e o ruim.
E apesar das paredes grossas, das colunas de concreto, dos diplomas, dos novos sons e das transformações, se você olhar bem de perto dentro das suas unhas e no vão entre os seus lábios, você verá um raio dourado pulsando freneticamente ao som de todos os segundos que você já viveu (na sua cabeça e fora dela).
E apesar das paredes grossas, das colunas de concreto, dos diplomas, dos novos sons e das transformações, se você olhar bem de perto dentro das suas unhas e no vão entre os seus lábios, você verá um raio dourado pulsando freneticamente ao som de todos os segundos que você já viveu (na sua cabeça e fora dela).
20.1.16
Olhos empoçados.
Uma neblina fina escorre pela lateral da janela do terceiro andar.
Eu quero subir até o espaço e deixar meu coração explodir em cacos cortantes.
Meu tórax vai ficar vazio como uma casa de ovo de avestruz, branca e fina...
Deixe o piano tocar. "eu não aprendo".
O objetivo de tudo é aumentar a minha resiliência?
A pele do meu rosto está cansada de vai e vens.
Eu quero subir até a árvore mais alta e fingir que aqui embaixo não existe, porque aqui embaixo é um vácuo maior que o lá de cima e porque aqui embaixo todos os esforços, as mudanças, as revoluções, as manhãs de guerra pessoal, as cãibras mentais e as tentativas de ser melhor não valem meio bilhete rasgado de loteria.
Uma neblina fina escorre pela lateral da janela do terceiro andar.
Eu quero subir até o espaço e deixar meu coração explodir em cacos cortantes.
Meu tórax vai ficar vazio como uma casa de ovo de avestruz, branca e fina...
Deixe o piano tocar. "eu não aprendo".
O objetivo de tudo é aumentar a minha resiliência?
A pele do meu rosto está cansada de vai e vens.
Eu quero subir até a árvore mais alta e fingir que aqui embaixo não existe, porque aqui embaixo é um vácuo maior que o lá de cima e porque aqui embaixo todos os esforços, as mudanças, as revoluções, as manhãs de guerra pessoal, as cãibras mentais e as tentativas de ser melhor não valem meio bilhete rasgado de loteria.
4.4.15
Dois cachorros laranjas deitados na grama mais verde de todas e o sol a pino (não tão forte por conta do vento) e umas folhas vermelhas vivas que caem lentamente sobre nossas cabeças sonhantes.
Eu nunca esperei na vida estar meramente sentada olhando para alguem como aquele, tendo pensamentos tão simples quanto qualquer nuvem deve ser. Eu deveria ter sido sempre isso tudo que é possível se ser quando não queremos muito especificamente nada além do que vem calmamente com a manhã; além daquilo que podemos construir aos poucos com a terra ao redor ao invés de esperar marte explodir cristais de melancolia nos quintais para que possamos ser enfim aquilo que talvez, ah talvez! então poderíamos ser.
E é preciso meditar no fim do dia: "Que diferença faz quando a gente sabe ser hidrelétrica-turbilhão um para o outro!" A partir daí é gratidão.
Eu nunca esperei na vida estar meramente sentada olhando para alguem como aquele, tendo pensamentos tão simples quanto qualquer nuvem deve ser. Eu deveria ter sido sempre isso tudo que é possível se ser quando não queremos muito especificamente nada além do que vem calmamente com a manhã; além daquilo que podemos construir aos poucos com a terra ao redor ao invés de esperar marte explodir cristais de melancolia nos quintais para que possamos ser enfim aquilo que talvez, ah talvez! então poderíamos ser.
E é preciso meditar no fim do dia: "Que diferença faz quando a gente sabe ser hidrelétrica-turbilhão um para o outro!" A partir daí é gratidão.
16.12.14
Você acorda em uma manhã comum que paira pendurada no finzinho da corda e o céu é azul e o frio é fino como faca.
É preciso as vezes se lembrar de se lembrar da vida...
Mutadores, os segundos se arremessam por dentro da sua janela levando tudo embora e deixando outras coisas no lugar: numa manhã como essa, você acorda e entende que o mundo foi feito para se esvair até zerar e começar de novo, e que tudo o que tem dentro dele precisa urgentemente fazer o mesmo.
Ilhotes do passado gotejam sobre a aba do seu chapéu pontuando irritantemente os erros e os acertos e sobretudo também tudo aquilo que deveria ter sido e que não foi e que agora perdeu a chance e morreu em estado de idéia.
É comum se falar que quando a gente morre a vida "passa diante dos olhos como um filme" - a partir dessa premissa, você concluiu que você já morreu muitas muitas vezes, em madrugadas solitárias quando o sono não vinha e toda a sua vida se desabrochava em movimentos sutis dentro do escuro do quarto trancado.
Será verdade que a gente nunca pode se lembrar mesmo exatamente das coisas como elas foram e isso porque a gente nunca pode mesmo sentir as coisas como elas são, porque uma vez que estamos lá, tudo já é diferente e os nossos olhos abocanham sempre com uma boca deles mesmos que por si só já tem sabor...?
Você queria que hoje uma bicicleta parasse diante da sua porta chacoalhando um sininho de boas-vindas e convidando para dar uma volta num campo infinito e permanente onde o vento é fresco e o barulho dos insetos é o verdadeiro.
É preciso as vezes se lembrar de se lembrar da vida...
Mutadores, os segundos se arremessam por dentro da sua janela levando tudo embora e deixando outras coisas no lugar: numa manhã como essa, você acorda e entende que o mundo foi feito para se esvair até zerar e começar de novo, e que tudo o que tem dentro dele precisa urgentemente fazer o mesmo.
Ilhotes do passado gotejam sobre a aba do seu chapéu pontuando irritantemente os erros e os acertos e sobretudo também tudo aquilo que deveria ter sido e que não foi e que agora perdeu a chance e morreu em estado de idéia.
É comum se falar que quando a gente morre a vida "passa diante dos olhos como um filme" - a partir dessa premissa, você concluiu que você já morreu muitas muitas vezes, em madrugadas solitárias quando o sono não vinha e toda a sua vida se desabrochava em movimentos sutis dentro do escuro do quarto trancado.
Será verdade que a gente nunca pode se lembrar mesmo exatamente das coisas como elas foram e isso porque a gente nunca pode mesmo sentir as coisas como elas são, porque uma vez que estamos lá, tudo já é diferente e os nossos olhos abocanham sempre com uma boca deles mesmos que por si só já tem sabor...?
Você queria que hoje uma bicicleta parasse diante da sua porta chacoalhando um sininho de boas-vindas e convidando para dar uma volta num campo infinito e permanente onde o vento é fresco e o barulho dos insetos é o verdadeiro.
28.11.14
Veja lentamente as flores que se abrem infinitas no novo gramado.
Sempre há um medo, apesar das auto-represálias-estima-de-lixo, de que aquilo que a gente viveu para poder erguer já não possa mais ser e que então seja preciso viver e erguer outras coisas; ou, subitamente, de surpresa, ter que aceitar a nova coisa que erguida já foi.
Nossa casa será o meu lar.
E, apesar disso, veja o céu tão branco tão ausente de promessas...
Todas as vezes que olho pro céu querendo descreve-lo, é como se o azul fugisse e deixasse pra mim um grande nada que não pode ser dito.
Mas eu insisto...
Besouros sobem pelo meu corpo, mas meu corpo já não é fraco para arrepios.
Deixo que subam todos e me cubram o rosto; eu sei! - eu ainda existo muito... por baixo de erros e acertos, meus e de outros.
E no fim das contas, a gente se re-ergue sim, e constroi outra coisa que atenda melhor às novas atmosferas. Mas a gente faz isso sempre usando um pouco da terra daquilo que a gente era antes e portanto pelo menos uma parte é sempre a gente de novo, sileciosamente... e se a gente souber fechar os olhos e respirar o cheiro das flores novas sem medo, uma enorme onda de nostalgia serena fará ser real e verdadeiro tudo aquilo o que foi (honoris causa), e será também o impulso para que os restos reaproveitáveis dos mims venham fazer coro ao grande e promissor novo.
Sempre há um medo, apesar das auto-represálias-estima-de-lixo, de que aquilo que a gente viveu para poder erguer já não possa mais ser e que então seja preciso viver e erguer outras coisas; ou, subitamente, de surpresa, ter que aceitar a nova coisa que erguida já foi.
Nossa casa será o meu lar.
E, apesar disso, veja o céu tão branco tão ausente de promessas...
Todas as vezes que olho pro céu querendo descreve-lo, é como se o azul fugisse e deixasse pra mim um grande nada que não pode ser dito.
Mas eu insisto...
Besouros sobem pelo meu corpo, mas meu corpo já não é fraco para arrepios.
Deixo que subam todos e me cubram o rosto; eu sei! - eu ainda existo muito... por baixo de erros e acertos, meus e de outros.
E no fim das contas, a gente se re-ergue sim, e constroi outra coisa que atenda melhor às novas atmosferas. Mas a gente faz isso sempre usando um pouco da terra daquilo que a gente era antes e portanto pelo menos uma parte é sempre a gente de novo, sileciosamente... e se a gente souber fechar os olhos e respirar o cheiro das flores novas sem medo, uma enorme onda de nostalgia serena fará ser real e verdadeiro tudo aquilo o que foi (honoris causa), e será também o impulso para que os restos reaproveitáveis dos mims venham fazer coro ao grande e promissor novo.
22.6.14
7.6.14
Dançava com as mãos que guardam a lua em plena euforia e um cachorro cinzento dava as costas a tudo e voltava a fuça para o próprio avesso e o que será que ele questionava?
Toda fumaça que se iça ao céu como um foguete, por mais densa que seja, ainda é fumaça e de repente devagar (sensibilidade contraditória) se espalha até desaparecer sob as estrelas.
Eu quero que o escuro da noite caia sobre os meus olhos como um lençol molhado, mas que amanhã tudo se repita, ao seu próprio modo... há certos efêmeros que valem a pena.
Toda fumaça que se iça ao céu como um foguete, por mais densa que seja, ainda é fumaça e de repente devagar (sensibilidade contraditória) se espalha até desaparecer sob as estrelas.
Eu quero que o escuro da noite caia sobre os meus olhos como um lençol molhado, mas que amanhã tudo se repita, ao seu próprio modo... há certos efêmeros que valem a pena.
15.2.14
2.2.14
Minha sorte foi que o dia seguinte começou numa nuvem vermelha que faz a garganta engasgar e o vento gelado das cinco da manha entrar pelos poros como um suor ao avesso que limpa o mundo pra dentro da gente e deixa um pouco dele lá mesmo e, por conseguinte, um pouco menos do nosso ego é capaz de dar as coordenadas naquele exato momento de 5:01am.
Na minha cabeça eu consegui ver com clareza um zepelim que partia de uma realidade forte para um momento-absurdo no espaço tempo, eu vi ele se mover e aí não fazer mais sentido.
Minha barriga ardia de não ter nada dentro e o meu coração mais ainda: não tinha nada mais lá há tanto tempo..
Uma criança largada girava um pirocóptero feito de folhas que não deu muito certo e acabou caindo numa poça e depois disso o pequeno se agachava e abraçava os joelhinhos sujos num ato heróico de auto-solidariedade.
Foi aí que eu disse: eu não quero mais nada, vida! eu não quero...
Mas a vida, mesmo assim, de repente me deu o vermelho das nuvens virando um rosa suave e morno que mais parecia um abraço, e eu ajoelhei do lado do moleque e abracei os meus joelhos também e entendi tudo... e aí o zepelim já não estava mais no céu da minha cabeça - por alguns minutos, só um pouco mais...
(E "só um pouco mais" é o suficiente para ser pra sempre se a gente souber repetir direitinho.)
Na minha cabeça eu consegui ver com clareza um zepelim que partia de uma realidade forte para um momento-absurdo no espaço tempo, eu vi ele se mover e aí não fazer mais sentido.
Minha barriga ardia de não ter nada dentro e o meu coração mais ainda: não tinha nada mais lá há tanto tempo..
Uma criança largada girava um pirocóptero feito de folhas que não deu muito certo e acabou caindo numa poça e depois disso o pequeno se agachava e abraçava os joelhinhos sujos num ato heróico de auto-solidariedade.
Foi aí que eu disse: eu não quero mais nada, vida! eu não quero...
Mas a vida, mesmo assim, de repente me deu o vermelho das nuvens virando um rosa suave e morno que mais parecia um abraço, e eu ajoelhei do lado do moleque e abracei os meus joelhos também e entendi tudo... e aí o zepelim já não estava mais no céu da minha cabeça - por alguns minutos, só um pouco mais...
(E "só um pouco mais" é o suficiente para ser pra sempre se a gente souber repetir direitinho.)
15.1.14
Desde o começo era tudo uma questão de estar lá no alto junto.
Eu escrevi o por do sol em um diamante e depois disso as estrelas caiam feito chuva grossa de calha, pesadamente, sobre a minha cabeça.
Meu relógio de pulso esticado sobre a mesa não nega que ontem já não é mais um hoje e que até hoje mesmo já é praticamente amanhã, mas amanhã será hoje e depois disso ontem.
E depois disso tudo volta a ser nada - se é que em algum momento do meu decreto ressentido tenha sido alguma coisa mais que isso.
Como quem coleciona grandes volumes de notas debaixo do colchão e um dia descobre que perderam seu valor, eu colecionei meus pensamentos para ele.
Desde o começo era uma questão de dar tudo. Ou correr então correr logo de uma vez para o outro lado... Eu dei tudo e só depois descobri que ter que se virar pra onde a gente não quer nem sempre é nossa decisão, ou pelo menos nem sempre é a nossa primeira opção (segunda, terceira?)
Tinha um lago que refletia o céu e o céu refletia o lago e é porque eu estava no meio que no fim das contas tudo acabava sendo eu de novo e não era isso que eu queria.
O despreparo logo se emenda no cansaço e juntos ocupam a grande parte da vida.. mas pra mim desde o primeiro dia sempre foi a hora certa, fosse qual fosse, e eu fiquei por alí, por todos os lados, feito um cão que ronda e nem por isso consegue alguma coisa.
De todas as minhas culpas, eu me orgulho de não ter essa: eu fui o cão, mas não fui o rato que foge. Eu estava lá.
A evolução natural da saudade, pelo bem ou pelo mal, é o esquecimento.
Eu escrevi o por do sol em um diamante e depois disso as estrelas caiam feito chuva grossa de calha, pesadamente, sobre a minha cabeça.
Meu relógio de pulso esticado sobre a mesa não nega que ontem já não é mais um hoje e que até hoje mesmo já é praticamente amanhã, mas amanhã será hoje e depois disso ontem.
E depois disso tudo volta a ser nada - se é que em algum momento do meu decreto ressentido tenha sido alguma coisa mais que isso.
Como quem coleciona grandes volumes de notas debaixo do colchão e um dia descobre que perderam seu valor, eu colecionei meus pensamentos para ele.
Desde o começo era uma questão de dar tudo. Ou correr então correr logo de uma vez para o outro lado... Eu dei tudo e só depois descobri que ter que se virar pra onde a gente não quer nem sempre é nossa decisão, ou pelo menos nem sempre é a nossa primeira opção (segunda, terceira?)
Tinha um lago que refletia o céu e o céu refletia o lago e é porque eu estava no meio que no fim das contas tudo acabava sendo eu de novo e não era isso que eu queria.
O despreparo logo se emenda no cansaço e juntos ocupam a grande parte da vida.. mas pra mim desde o primeiro dia sempre foi a hora certa, fosse qual fosse, e eu fiquei por alí, por todos os lados, feito um cão que ronda e nem por isso consegue alguma coisa.
De todas as minhas culpas, eu me orgulho de não ter essa: eu fui o cão, mas não fui o rato que foge. Eu estava lá.
A evolução natural da saudade, pelo bem ou pelo mal, é o esquecimento.
17.12.13
Enquanto eu descia a rua ladrilhada de diamantes duas aves gigantescas sobrevoaram minha cabeça lançando suas silhuetas contra as silhuetas das árvores do topo da montanha até que tudo se fundisse em uma só camada de desconhecido.
Eu queria nunca ter descoberto o véu de sol que recaía sobre o fundo inteiramente negro; queria que a majestade do engano e das ilusões ainda vigorasse para que eu pudesse chegar à raiz da rua com os dentes a mostra e tivesse vontade ainda de comprar uma pipoca e uma garapa, de me sentar no banco atrás do chafariz e ter a infantileza de olhar para o rio imundo imaginando peixes.
Um homem me pedia um isqueiro e eu tirava do bolso o bic branco enquanto pensava que talvez esse fosse o único tipo de camaradagem que eu ainda fosse capaz de ter - um vazio sem comichões atravessava meu peito, como as aves haviam adentrado o nada meio segundo atrás.
Para um homem que não é sozinho até um rato é companhia; já para o outro... para o outro, você sabe, nada pode mudar isso.
Os homens amigos dos ratos, eles falam sempre do silêncio que vem antes da tempestade, o pré-silêncio, mas ninguém pensa no silêncio que vem depois: um silêncio que parece um espelho pesado enterrado no fundo abissal, um silêncio esmagado por uma gravidade alta demais...
E a questão de todas as questões é que no escuro um espelho não é mais um espelho já que perde a capacidade de refletir e eu fiquei parada olhando para ele até que nós dois sumíssimos e aí é que está, porque depois que eu desacortinei o sol eu acho que eu meio que parei de existir também.
Eu queria nunca ter descoberto o véu de sol que recaía sobre o fundo inteiramente negro; queria que a majestade do engano e das ilusões ainda vigorasse para que eu pudesse chegar à raiz da rua com os dentes a mostra e tivesse vontade ainda de comprar uma pipoca e uma garapa, de me sentar no banco atrás do chafariz e ter a infantileza de olhar para o rio imundo imaginando peixes.
Um homem me pedia um isqueiro e eu tirava do bolso o bic branco enquanto pensava que talvez esse fosse o único tipo de camaradagem que eu ainda fosse capaz de ter - um vazio sem comichões atravessava meu peito, como as aves haviam adentrado o nada meio segundo atrás.
Para um homem que não é sozinho até um rato é companhia; já para o outro... para o outro, você sabe, nada pode mudar isso.
Os homens amigos dos ratos, eles falam sempre do silêncio que vem antes da tempestade, o pré-silêncio, mas ninguém pensa no silêncio que vem depois: um silêncio que parece um espelho pesado enterrado no fundo abissal, um silêncio esmagado por uma gravidade alta demais...
E a questão de todas as questões é que no escuro um espelho não é mais um espelho já que perde a capacidade de refletir e eu fiquei parada olhando para ele até que nós dois sumíssimos e aí é que está, porque depois que eu desacortinei o sol eu acho que eu meio que parei de existir também.
22.11.13
Uma máquina feroz avançando cada vez mais dentro do branco chuviscado. Uma bolota meteorológica cheia de arrependimentos.... Foi a primeira vez que senti a chuva não ter tempo pra cair... e molhava - um verbo já no passado, sem nunca ter sido presente. (Talvez exatamente como tudo o que eu já pensei ter tido.)
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