Um homem alto, calado, a quem eu olhava com desfoque para fingir que não olhava, sentava-se sozinho.
Eu, por minha vez, sentava-me com muitos mas, tenho certeza, mais sozinha do que ele jamais esteve.
Meus muitos, também sozinhos - cada um em sua perspectiva estritamente pessoal - , gritavam qualquer coisa uns aos outros ao que eu respondia com risinhos e acenos, mesmo sem fazer idéia do que era dito, apenas para servir de álibi ao meu disfarce óptico.
Não pude, após inúmeras tentativas, arrancar fato tão ordinário de meus pensamentos até entender o porquê de não poder: não pude porque era pesado demais para que eu o tirasse.
E por que pesado? Que peso tem o homem (quase) desconhecido?
O que me pesa não é o homem, ou a curiosidade que me provoca.
O que me pesa é meu modo de ter que ver o que não quero no primeiro plano e ter de ver o que quero no segundo, tão sem nitidez.
O que me pesa é que é assim também que eu vejo todo o resto, é assim também que eu vejo o mundo... é assim que eu vejo a mim.
E o que será - pois certamente há algo - que até hoje eu só soube focar em punctum caecum?
3.5.10
Se se morre, somente.
Não havia o que se saber, não havia o que se ver ou se ouvir, não havia cheiros e gostos e o gelo, sutilmente, erradicava também o quinto sentido.
Porque, de tão branca, a neve se fundiu ao céu de névoas e já não havia limite a que a percepção pudesse se agarrar; e, não obstante o chão tão, tão duro, de sonhador que era (coragem infinda) cruzou o fervente Centro da Terra de asas abertas, como libélula livre no verão.
O coração não mais precisou bater, conquanto agora planeta o fizesse por ele - no compasso da rotação.
Porque, de tão branca, a neve se fundiu ao céu de névoas e já não havia limite a que a percepção pudesse se agarrar; e, não obstante o chão tão, tão duro, de sonhador que era (coragem infinda) cruzou o fervente Centro da Terra de asas abertas, como libélula livre no verão.
O coração não mais precisou bater, conquanto agora planeta o fizesse por ele - no compasso da rotação.
2.5.10
Pensa Rápido
Reuniram-nos rapidamente.
Alinhados lado a lado, nós, pobres coitados, tremíamos tal qual vara verde, mas o homem à frente - que se esticava todo para compensar a solidão de ser um só diante de tantos - não parecia notar.
A única coisa que eu sei que ele notou foi o apito que soou vindo de sabe-se lá deus onde e anunciou o início da entrevista conjunta.
A voz - grave para fazer coro ao porte ereto - soprepôs-se ao sinal:
Senhores! A avaliação baseia-se numa só questão (desesperados, pude ver meus colegas destampando as canetas, alguns tremiam):
De que precisa, você, para chegar lá?
Eu ainda me perguntava que diabos "lá", quando as hidrográficas se lançaram sobre as folhas em branco como lobos famintos sobre a presa.
Pude espiar, de soslaio, meu colega à esquerda fazendo uma longa lista que incluia:
-Provisões para, no mínimo, três meses;
-Um carro (de preferência 4x4);
-Kit primeiros-socorros;
-Dicionários diversos;
-Cartão de crédito;
-...
Eu poderia ter copiado, já que não fazia idéia do que deveria responder, mas sempre fui do tipo que prefere saber o que diz para não dizer o contrário do que pensa - a vida assim seria toda errada!
Infelizmente, eu não pude ver sentido em nada daquela lista precipitada; menos sentido ainda pude ver na expressão de satisfação e triunfo no rosto de seu autor.
Já estava me desesperando quando um homem magro e alto no fim da fila levantou-se, foi até o coordenador e disse, polida e calmamente:
Senhor, preciso que me mostre o caminho e nada mais.
Empolgado com a coragem do colega, outro candidato levanta a voz:
Dê-me fé, e eu chegarei!
Eu, que não obstante temia pela vaga, pude sentir meus olhos marejarem com tanta poesia!
Não deu nem tempo de tentar bolar minha própria resposta, mais uma bela frase de efeito, quando se levanta mais um, bem próximo de onde eu estava e solta o grito febril:
Tenho tudo de que preciso, permita-me partir e eu vou agora mesmo!
Foi o nocaute de que nós, os tímidos com os traseiros colados aos bancos, não precisávamos.
Pensamos todos, inclusive o próprio coordenador, que alí estava o cara certo.
Mas isso foi só até anunciarem no megafone que haviam telefonado de Algum Lugar, e a mensagem era para todos nós:
Cheguei.
Alinhados lado a lado, nós, pobres coitados, tremíamos tal qual vara verde, mas o homem à frente - que se esticava todo para compensar a solidão de ser um só diante de tantos - não parecia notar.
A única coisa que eu sei que ele notou foi o apito que soou vindo de sabe-se lá deus onde e anunciou o início da entrevista conjunta.
A voz - grave para fazer coro ao porte ereto - soprepôs-se ao sinal:
Senhores! A avaliação baseia-se numa só questão (desesperados, pude ver meus colegas destampando as canetas, alguns tremiam):
De que precisa, você, para chegar lá?
Eu ainda me perguntava que diabos "lá", quando as hidrográficas se lançaram sobre as folhas em branco como lobos famintos sobre a presa.
Pude espiar, de soslaio, meu colega à esquerda fazendo uma longa lista que incluia:
-Provisões para, no mínimo, três meses;
-Um carro (de preferência 4x4);
-Kit primeiros-socorros;
-Dicionários diversos;
-Cartão de crédito;
-...
Eu poderia ter copiado, já que não fazia idéia do que deveria responder, mas sempre fui do tipo que prefere saber o que diz para não dizer o contrário do que pensa - a vida assim seria toda errada!
Infelizmente, eu não pude ver sentido em nada daquela lista precipitada; menos sentido ainda pude ver na expressão de satisfação e triunfo no rosto de seu autor.
Já estava me desesperando quando um homem magro e alto no fim da fila levantou-se, foi até o coordenador e disse, polida e calmamente:
Senhor, preciso que me mostre o caminho e nada mais.
Empolgado com a coragem do colega, outro candidato levanta a voz:
Dê-me fé, e eu chegarei!
Eu, que não obstante temia pela vaga, pude sentir meus olhos marejarem com tanta poesia!
Não deu nem tempo de tentar bolar minha própria resposta, mais uma bela frase de efeito, quando se levanta mais um, bem próximo de onde eu estava e solta o grito febril:
Tenho tudo de que preciso, permita-me partir e eu vou agora mesmo!
Foi o nocaute de que nós, os tímidos com os traseiros colados aos bancos, não precisávamos.
Pensamos todos, inclusive o próprio coordenador, que alí estava o cara certo.
Mas isso foi só até anunciarem no megafone que haviam telefonado de Algum Lugar, e a mensagem era para todos nós:
Cheguei.
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