2.7.10

Semântica

Se as pessoas pensassem mais no que dizem, elas veriam que quem está "desesperado" não é quem grita e chora, o desesperado é aquele que já desistiu e não espera mais nada de coisa nenhuma, aí ele só continua... todo cheio de despropósito.
Mas veio o valor atribuído martelando por tanto tempo a imagem do cara e a barba malfeita e as mãos trêmulas e o possível dedo no gatilho, e agora a gente tem mais um sinônimo cotidiano pra agonia e a ansiedade.
O cara que só segue em frente sem querer nem esperar nada, nem ser feliz e nem infeliz, o cara que não tem esperanças, mas que também não tem o oposto disso, pra esse a gente não tem palavra nenhuma... e eu acho que é por isso que ele deixou de existir.

Sobre o medo do escuro

Prosepina não tem medo do escuro, o que ela tem medo é do exato momento em que os dedos tocam o interruptor e revelam o que ela já esperava: tudo igualzinho ao que era antes.
Ela acha que se ninguém apagasse as luzes ela nunca mais precisaria passar por esse tipo de decepção... mas sempre tem alguém pra dar "boa noite", um beijo na testa e lembrar carinhosamente que hoje já é amanhã, de novo.
Se não é alguém, é o Sol...

Em ritmo de tédio

Não que resolva o problema, mas a Rainha se sente mais tranquila com a possibilidade de que pelo menos uma das trilhões de existências paralelas dela mesma esteja bem agora escrevendo um belo texto para postar, ao invés de algo completamente sem sentido que além de não servir para nada ainda deforma ao seu bel-prazer questões científicas de que na verdade ela pouco entende.
E ela ainda vai se aproveitar um pouco mais dessa pequena blasfêmia quântica, que de qualquer modo já a comprometeu, para imaginar, por alguns minutos que seja, se alguma das outras "ela" poderia estar por aí estentendo seu reinado um pouco mais para o sudoeste, enquanto a única coisa que esta "ela" daqui (tão tangível que já perdeu a graça) pode estender é um parágrafo que está simplesmente morto desde sua primeira palavra.