Pelo menos era isso o que eu queria... o nada justifica ausências muito melhor que o "tudo", como se sabe.
2.4.11
Sobre aceitar o clichê
Muito tempo se construíndo.
O tempo todo, eu diria.
E erguia justamente as cartas que (achava) nunca antes haviam sido erguidas.
Alinhava os astros de maneiras que fugiam à compreensão de qualquer um.
E o dois mais dois jamais deu quatro.
Se o céu dos outros eram um azul unânime, o seu era escarlate.
[e onde os outros viam céu sangue seus olhos só viam coração palpitante: "tuc tuc, tuc, tuc tuc, tuc" e daí a chuva.]
[e onde os outros viam céu sangue seus olhos só viam coração palpitante: "tuc tuc, tuc, tuc tuc, tuc" e daí a chuva.]
Derramou não se sabe mais quantas idéias rio abaixo, porque elas eram gastas demais, rotas demais, perderam o sal.
Daí se achava de vez em quando em cócoras no meio do mato procurando aquele pezinho de pimenta selvagem que ninguém ousou provar.
Às vezes achou que achou, mas hoje em dia acha que não.
Aliás, hoje em dia não acha mais nada.
Hoje em dia não procura, sequer.
E hoje em dia anda pensando que, sim, talvez dois e dois juntos caibam certinho entre um cinco e um três.
1.4.11
Sobre desidratação
Contemplando o copo vazio eu me pergunto se eu realmente bebi tudo num gole só ou se fiquei louca, porque podia jurar que um segundo atrás era ele cheio até a boca.
Podia jurar...
Podia jurar que não sentiria sede tão cedo, mas agora é assim que é... agora é a sede que ainda não chegou mas que já avisou que vem vindo.
E isso é pior do que se ela já tivesse batido, é, tipo assim, como quando a gente vai levar uma bolada e sabe que vai e aí espreme os olhos e espreme o rosto inteiro já esperando a pancada - como se daí a bola não fosse bater, como se daí não fosse doer tanto quanto.
Assim também: quem me olhar de perto a partir de agora verá minhas mãos trêmulas protegendo a garganta da secura que vem chegando - como se daí meu corpo não precisasse mais de água, como se daí o copo se enchesse de novo.
E é bem aí que eu me protejo demais e acabo me sufocando.
Podia jurar...
Podia jurar que não sentiria sede tão cedo, mas agora é assim que é... agora é a sede que ainda não chegou mas que já avisou que vem vindo.
E isso é pior do que se ela já tivesse batido, é, tipo assim, como quando a gente vai levar uma bolada e sabe que vai e aí espreme os olhos e espreme o rosto inteiro já esperando a pancada - como se daí a bola não fosse bater, como se daí não fosse doer tanto quanto.
Assim também: quem me olhar de perto a partir de agora verá minhas mãos trêmulas protegendo a garganta da secura que vem chegando - como se daí meu corpo não precisasse mais de água, como se daí o copo se enchesse de novo.
E é bem aí que eu me protejo demais e acabo me sufocando.
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