9.11.12

Sobre o Movimento do Carrossel

Eles puseram uma lona de cabo a rabo pelo teto do carrossel.
Não disseram nada, foram-se embora.
Eu fiquei guardada lá dentro, junto com os falso-cavalos e um pernilongo que também foi pescado pela aleatoriedade da situação.
Mas aí ele achou um buraco.
Não disse nada e foi embora também.
Fiquei lá dentro agora só com os falso-cavalos que tinham a tinta descascando e uma estaca cravada no peito que partia do base e chegava até o céu de plástico... (e se ainda fosse o céu de verdade!)
A única direção que os falso-cavalos tinham era um pra frente circular, um "pra sempre de volta"; e a única direção que eu tinha era essa também, já que eu não pude passar pelo furo que o pernilongo passou.
E a gente girou, eu e os meus falso-cavalos, a gente girou como uns imbecis...
E o mundo lá fora fazia barulho de alegria e de conversação, e o mundo lá fora fazia barulho de vida, mas a gente girava como fossemos os ponteiros de um relógio enterrado fundo debaixo da terra.
A gente não servia pra nada, e o nada não servia pra gente.
O dourado dos cavalinhos já caia pelo chão, feito areia, e o meu vestido amassado tinha um botão faltando.
Subi em cima do mais acabado dos quinze pangarés e abracei o mastro como marinheiro contemplando naufrágio.
Mayday, Mayday...
Perdemos outro botão e um dos cavalos acabou de perder um olho...
E se continuarmos girando assim amanhã já não sei mais o que é sucata e o que sou eu.


6.11.12

Diário de Calçada e Manipulação de Cena

Todas as cidades e todos os cantos são a mesma quina: um buraco onde um homem cansado joga meia dúzia de lágrimas de repente vira o pedestal onde um homem fervoroso em si planeja ser o superman.
Eu sentei nesse mesmo pedestal, nesse mesmo buraco, e catava umas ervas daninhas que subiam do esgoto e pensava que daninhas em certo caso podem ser as salvadoras da cena e tudo o mais.
("E tudo o mais."
E o que é que é o tudo o mais?
Eu nunca sei.
O que é que há de mais além das ervas daninhas e um buraco que entra pelo chão carregando as coisas que a gente não quer ver?)
Eles falam pra gente que a gente deve encher a cabeça, pensar no que é fácil pra poder praticar o esquecimento daquilo que é difícil... e eu que sempre planejei perder as coisas-espinhos que acertavam minha cabeça, subitamente me senti ofendida quando eles me ofereceram o manual.
Eu não quero ser o homem que chora o cansaço, nem o homem que tem uma escada imaginária saindo da própria cabeça até as estrelas; eu quero ser a pessoa que vê a erva daninha e o bueiro, o muro que se espreme entre os prédios e encerra o beco, o pedacinho magricelas de céu que vem lá no final desses prédios e as Três-Marias quase apagadas que pela sorte se encaixaram alí e que continuarão longe porque eu não tenho uma escada.
E depois que eu me levantar e for embora um mendigo ou uma garotinha perdida vão tomar o meu lugar e pensar numa casa ou em um balão ou em mim, e as minhas ervas daninhas vão desaparecer a partir daí até que eu volte.

1.11.12

Sobre o Movimento dos Cães

O céu nasceu inteiro branco esta manhã, como um vento cristalizado num frame pausado onde a gente consegue ver a silhueta do fantasma.
(Se eu enfiasse uma agulha no céu de hoje ele me devolveria ela torta.)
Todas as tentativas de contornar a cerca e adentrar a Grande Casa foram vãs até o momento... quanto mais a gente corre tentando achar uma brecha mais cerca nasce no caminho.
Fica uma questão pinicando nos vértices do nosso quadrado coração e ela quer saber porque é que a gente quer tanto entrar.
E a gente evita, a gente evita esses vértices... A gente finge que nosso coração é arredondado e não tem as pontas afiadas das perguntas, mas só que ele tem.
Aí a gente faz que cospe ele para fora pelo caminho, queremos não pensar que se a gente pensar a gente vai se descobrir e tudo irá se revelar: o nada, a falta de proposito.
Mas a gente não consegue cuspir, a gente nunca conseguiu, e aí ele nos fica entalado entre a garganta e a língua.
(Foi aí que a gente perdeu as palavras!)
Nós não queremos ser niilistas, nós queremos acreditar num romance cheio de reviravoltas estarrecedoras...
Mas por mais que a gente tente e queira nada nos estarrece mais... não para valer, não se a gente tiver tempo e coragem de olhar de frente.
Por isso nós circundamos a casa. Porque a casa não dá para ser vista por dentro - tão impenetrável quanto o céu.
Somos os cães com medo da chuva que não entendem e não podem ver que essa casa não tem teto...
E a gente pode uivar o quanto a gente quiser, a gente pode virar loucos e até tentar dizer palavras, mas cada uma delas, eu sei: voltará tão torta quanto a minha agulha.