18.11.12

Adeus Se Escreve Numa Frase de Muitos Dias

Quando a gente desaparece é como quando a gente vai perdendo as coisas por um bolso furado e sabe disso, ou como quando a gente tem tempo pra sentar no meio fio de uma rua sem postes e ver o dia escurecer até o final: quando a gente desaparece é como quando a gente então força os olhos no escuro pra achar "não-sabemos-bem-o-que", já sabendo que não dá.
Quando a gente desaparece é como quando a gente vai constatando um dia depois do outro que a geladeira só fica cada vez mais vazia. E a gente desaparece porque a gente não quer mais parar no posto da felicidade barata pra coletar umas garrafas de persistência; a gente quer agora é ver o último queijo da geladeira mofar mesmo e a gente quer comer ele depois, como num ritual pra matar cachorro morto.
Nunca perguntaram pra quem desaparece se quando a gente desaparece dói, ou se quando a gente desaparece é pra sempre.
Deve ser porque não se pode perguntar coisas pra quem já sumiu..
E de todo jeito não dá pra se lembrar de uma nuvem evaporada tal qual uma nuvem evaporada também não se lembra de nada.
E quem desaparece quer justamente é deslembrar, que nem a nuvem, quer ver a memória escorrer para fora conforme expira devagar.
(Mas a memória, tipo fosse o coração da alma, é a última coisa que vai embora no final das contas...)

Nossa Casa na Árvore, que um dia foi tudo, apodreceu e caiu e a gente não vai montar de volta porque a gente já não é mais o que a gente era...
"A gente já não é mais o que a gente era..."
E foi assim que a gente foi sumindo, se isso serve de exemplo.

16.11.12

4º Manifesto do Terreno Baldio

O moleque anda, passos tortos de cacos.
Uma estrada muito limpa e cinza se faz ver por trás da cerca alta de mato vulgar: é por ali que passam as pessoas de verdade.
O moleque anda mais três metros e sustém o ar.
Uma moça alta na medida certa tem as pernas longas e se apoia no capô de um carro da melhor categoria enquanto que o moleque pensa que daqui pra lá os tico-ticos, os sabiás, os casaca-de-couro perderam o espaço pros pombos assim como os moleques arrebentados e enlmeados perderam espaço pras pessoas que parecem que vieram de filme, as pessoas de verdade, aquela mulher.
A lama pinga pela ponta do cabelo raspado curto e cai no olho e o menino esfrega e com o olho que sobra vê a moça fumar e chutar um pombo com a lateral do pé.
Tudo é cinematográfico demais da cerca pra lá... as mulheres não caem do salto, os homens têm a barba propositalmente ralada. O sucesso. O estilo. As nuvens que ou chovem pra valer ou existem só de cenário... e as nuvens de cá que estão em constante chuva mas nunca um temporal daqueles onde o mocinho beija a mocinha.
Do lado de cá não temos fotografias e não temos a persistência estética que faz fazer o gosto do cigarro ser bom.
Quando o moleque tira um cigarro amassado do bolso pra fumar é porque quer justamente meter gosto ruim na boca, deixar queimar como um pavio pra ver se a cabeça-bomba vai aos ares. Ele sempre teve essa curiosidade.
Mas o casaca-de-couro pousa do ombro e o cigarro nunca chega até o fim. O moleque ainda tem tempo antes de o pavio acabar e ele explodir. Isso fica pra depois...
E a mulher acaba o cigarro só até o ponto em que disseram que ele acaba, mas não até chegar na boca.
Por isso, vai ver, é que ela não explode... simplesmente joga o pavio no meio-fio, refaz o batom, entra no carro como fosse um manequim programado e quando o carro vira a curva e vai embora ela parece que deixa de existir... bem como nos filmes... quando a cena acaba, essas pessoas de verdade acabam também.
Exatamente como nos filmes...
E o moleque de mentira dá de ombros, tira uma catota do nariz e vai catar mais uns besouros gente-boa.


12.11.12

Diário de Calçada e Suspensão

E você sente o puxão pelas costas... e prenderam teus suspensórios a dois ganchos tão altos... tão altos!
E os pés bambeiam desiludidos, sem um chão.
Chão que sustenta o pé que sustenta a perna que sustenta o corpo que sustenta a cabeça que sustenta o cérebro que sustenta as ideias.
E de repente muda:
Gancho que segura as calças, que segura as pernas, que seguram os pés, que não seguram nada.
E tanta coisa se perdeu na inversão... tanta coisa evaporou, e a sentença diminuiu quase que pela metade...
Restou um bambaleio, uma sensação de injustiça... essa sensação de injustiça que leva os justos a se questionarem até o fundo da alma; que leva os justos a se sentirem, no fim, injustos, merecedores de uma guilhotina, simplesmente para evitar serem eles os que julgam errado.
E os suspensórios firmes, de não tão boa qualidade assim, mas firmes.
E a sensação da eternidade... essa sensação de eternidade que leva os homens, tão perecíveis, a se projetarem num infinito que dura o instante de uma dor.
E começa uma chuva fina, e as gotas pingam pelos cadarços mal amarrados formando uma poça particular.
E você se enxerga: nem da terra e nem do céu.
"Nem de deus, nem do diabo."
E percebe que todos os homens já nasceram com os colarinhos agarrados nos próprios ganchos invisíveis.