4.4.15

Dois cachorros laranjas deitados na grama mais verde de todas e o sol a pino (não tão forte por conta do vento) e umas folhas vermelhas vivas que caem lentamente sobre nossas cabeças sonhantes.
Eu nunca esperei na vida estar meramente sentada olhando para alguem como aquele, tendo pensamentos tão simples quanto qualquer nuvem deve ser. Eu deveria ter sido sempre isso tudo que é possível se ser quando não queremos muito especificamente nada além do que vem calmamente com a manhã; além daquilo que podemos construir aos poucos com a terra ao redor ao invés de esperar marte explodir cristais de melancolia nos quintais para que possamos ser enfim aquilo que talvez, ah talvez! então poderíamos ser.
E é preciso meditar no fim do dia: "Que diferença faz quando a gente sabe ser hidrelétrica-turbilhão um para o outro!" A partir daí é gratidão.

16.12.14

Você acorda em uma manhã comum que paira pendurada no finzinho da corda e o céu é azul e o frio é fino como faca.
É preciso as vezes se lembrar de se lembrar da vida...
Mutadores, os segundos se arremessam por dentro da sua janela levando tudo embora e deixando outras coisas no lugar: numa manhã como essa, você acorda e entende que o mundo foi feito para se esvair até zerar e começar de novo, e que tudo o que tem dentro dele precisa urgentemente fazer o mesmo.
Ilhotes do passado gotejam sobre a aba do seu chapéu pontuando irritantemente os erros e os acertos e sobretudo também tudo aquilo que deveria ter sido e que não foi e que agora perdeu a chance e morreu em estado de idéia.
É comum se falar que quando a gente morre a vida "passa diante dos olhos como um filme" -  a partir dessa premissa, você concluiu que você já morreu muitas muitas vezes, em madrugadas solitárias quando o sono não vinha e toda a sua vida se desabrochava em movimentos sutis dentro do escuro do quarto trancado.
Será verdade que a gente nunca pode se lembrar mesmo exatamente das coisas como elas foram e isso porque a gente nunca pode mesmo sentir as coisas como elas são, porque uma vez que estamos lá, tudo já é diferente e os nossos olhos abocanham sempre com uma boca deles mesmos que por si só já tem sabor...?

Você queria que hoje uma bicicleta parasse diante da sua porta chacoalhando um sininho de boas-vindas e convidando para dar uma volta num campo infinito e permanente onde o vento é fresco e o barulho dos insetos é o verdadeiro.

28.11.14

Veja lentamente as flores que se abrem infinitas no novo gramado.
Sempre há um medo, apesar das auto-represálias-estima-de-lixo, de que aquilo que a gente viveu para poder erguer já não possa mais ser e que então seja preciso viver e erguer outras coisas; ou, subitamente, de surpresa, ter que aceitar a nova coisa que erguida já foi.
Nossa casa será o meu lar.
E, apesar disso, veja o céu tão branco tão ausente de promessas...
Todas as vezes que olho pro céu querendo descreve-lo, é como se o azul fugisse e deixasse pra mim um grande nada que não pode ser dito.
Mas eu insisto...
Besouros sobem pelo meu corpo, mas meu corpo já não é fraco para arrepios.
Deixo que subam todos e me cubram o rosto; eu sei! - eu ainda existo muito... por baixo de erros e acertos, meus e de outros.
E no fim das contas, a gente se re-ergue sim, e constroi outra coisa que atenda melhor às novas atmosferas. Mas a gente faz isso sempre usando um pouco da terra daquilo que a gente era antes e portanto pelo menos uma parte é sempre a gente de novo, sileciosamente... e se a gente souber fechar os olhos e respirar o cheiro das flores novas sem medo, uma enorme onda de nostalgia serena fará ser real e verdadeiro tudo aquilo o que foi (honoris causa), e será também o impulso para que os restos reaproveitáveis dos mims venham fazer coro ao grande e promissor novo.