31.3.11

Sobre recusa

E daí dá um aperto, goela engole seco.
Dá pra ver de longe:
Gulp.
Não sabe mais de nada, não sabe mais de nada... fica repetindo.
Não sabe.
Não quer saber.
Fecha os olhos prá poder dormir.
[Tenta.]

Inocente até a última gota, o sujeito que pensa que fechar os olhos impede de ver.
Fechar os olhos pro mundo, agora sabemos, é simplesmente escancarar as cortinas pra um ponto de vista (pelo menos) estupidamente mais caótico.
[E sincero.]

Sobre o amor próprio que a gente devia ter

Não, não, lagartinha.
Não se rasteja não.
Olha só o gato como vai... de rabo empinado, por cima do muro, por cima do mundo.
Não se rasteja não, lagartinha, que ele nem te viu. (E nem vai...)
Ele só olha o gato, e aí, lagartinha, você olha pro gato também e tenta fazer "miau!" também, assim parecido com o dele.
Mas só te sai rouquidão, não é mesmo?
Eu vi...
Comigo também.
Só me sai rouquidão... e eu que queria dizer tantas coisas!
Eu queria dizer assim um "miau!" bem baixinho, bem pouco esforçado, e ganhar um afago dos bons, igual ao que o gato ganha. (E a mão se estica toda, e os pés na pontinha, só pra tocar o pêlo macio do gato que não está é nem aí...)
Mas aí pra gente só sai mesmo é ausência, só sai negação.
Frustração... porque os olhos se negam a ver nosso corpo coitado que se encolhe e se retorce sob o sol queimador, porque se recusam a ver lagartinha rastejando para ficar mais pertinho, o pouquinho que der pra ser...
E aí então é assim que é: lagartinha rasteja por horas e quando chega lá o sapato idolatrado se afasta pro infinito com uma única passada.
Que humilhante, lagartinha!
Que humilhação.
Lagartinha vai rastejando, como uma completa idiota!, sob os pés dele, por baixo do muro, por baixo do mundo.
Não se rasteja não, lagartinha, não se rasteja não que é capaz de ele ainda te pisar.
Vira logo borboleta, lagartinha, e vai embora logo visitar o céu onde tem nuvens carinhosas que nunca vão te dizer que "sim", mas que  também nunca vão enfiar sola de bota fundo no seu coração.
E,  se a tarde cair mais cedo, será possível vê-las a rastejar por todos os cantos, fingindo que miam baixinho, enquanto você desfila com suas admiráveis asas de cores mil.

26.3.11

É como se você estivesse numa festa de gala trajando farrapos.

E você não é pobre nem nada, você poderia estar mais bem vestido que muita gente alí.
Mas você caiu alí assim, você não teve tempo.
Você queria dizer a eles... você não teve tempo.
Você queria se explicar...
Mas não tem desculpa, você sabe, eu sei.
E eles fingiriam que sim, mas não entenderiam.
Você quer se esconder, você não quer que ninguém te veja, te conheça, fale com você.
Você não quer que eles pensem que você é daquele jeito, você queria que eles te vissem como você é, com a roupa que você escolheu.
Você se sente grato quando um ou outro vem conversar, mas você nunca vai deixar de achar que eles irão te olhar de cima abaixo assim que lhes virar as costas.
E o pior é que eles teriam razão.
Você faz o mesmo, se conseguir reunir um pouco de coragem.
Você se olha dos pés à cabeça no espelho do banheiro e aí bate um cansaço... mais que um desespero, uma desesperança.
As vezes você sai de lá com a cabeça erguida: "todo mundo já me viu mesmo!" e fica a vontade.
Mas aí vai percebendo que quase ninguém tinha te visto ainda, e as cabeças começam a se voltar em sua direção. As cabeças que você realmente queria conhecer.
Você quer ir lá e quer cumprimentar, são pessoas legais, você queria trocar uma idéia...
Mas seus farrapos te fazem querer desaparecer, só e simplesmente isso.
Você queria que eles soubessem quem você é, mas tudo o que eles vão saber sobre você no final das contas é que você é "aquele cara doido com as roupas de mendigo".
Nada contra roupas de mendigo, estaria tudo bem se fosse uma festa de mendigos.
Mas naquela ocasião você só querer estar no zero a zero, só isso, estar no mesmo nível, ter uma chance igual a de qualquer outro.
E se a música toca e a pista se enche de pernas bailantes você quer dançar.
Você sabe que você sabe dançar, você sabe que eles iriam gostar... mas você se inibe.
Porque antes de ver teus passos eles vão olhar sua roupa.
Você sumiu dentro dela, você sumiu.
Você só queria que eles te vissem como você é... você só queria se ver como você é.
Você não tem pra onde ir, por todos os cantos surgem pessoas e puxa, o pior é que você adora pessoas.
Mas você sente que se apresentar a elas assim é destruir completamente suas chances de que elas te conheçam de verdade.
Às vezes você entra no papel, mas não tarda e engole o seco se lembrando saudoso da normalidade... porque só na normalidade existe clareza para se perceber as sutilezas.
E é disso que o homem é feito: sutilezas.
Sua roupa não é nada sutil.
Te afoga, te sufoca, te mata.
Você morreu, aquele dalí é outro.
É por isso que você acha extremamente injusto se apresentar aos outros convidados se chamando pelo seu próprio nome... a sua voz fica fraca e você não fala nada.
Você hesita; um passo pra frente, dois pra trás.
Você só queria se livrar da sua circunstância extravagante, você só queria ser você.
E que eles pudessem te ver...
Ah, se eles pudessem te ver..