11.1.13

Sobre o Movimento da Espera

Ele que tem ouvidos de poço tapado e cujas bolas dos olhos são pedras se mantem inclinado sobre uma mesa de carvalho e risca com as unhas pontos e linhas de constelações.
Ursa Maior, Três Marias, Órion e o Cruzeiro.
Quanto tempo leva pra ela vir abrir a janela e ele não precisar recriar a realidade com as unhas?
(Ela tem olhos reais e ouvidos reais, mas foi batizada com um cheiro insuperável de abandono, coisa que, aos olhos de pedra dele, podem ser bem mais deprimentes se a gente for pensar bem.)
Lira, Centauro, Cão Menor.
Todo mundo já perdeu um tempo tentando decorar sistematicamente alguma coisa imbecil, que afinal que mais que se pode fazer pra matar um pensamento exceto comprimir o ar dentro da cabeça com mais uma tonelada deles?
Aquário, Andrômeda, Corvo, Dragão, Gêmeos, quando é que ela vem?
Ele já não tem mais unhas pra esperar aquela mulher-navioafogado, (desgraçada!), e se ela vier e abrir a janela não sabemos muito bem... não sabemos se vai fazer alguma diferença, já que pedra não enxerga estrela.



28.12.12

De todas as coisas que você poderia ser, você decide ser todas-nenhumas elas.
Como que se a gente tivesse que apostar num cavalo só, mas você pegasse sua nota de dez pila e rasgasse em mil farelos de granas e aí passasse toda a corrida tentando decidir qual farelo vai pra qual cavalo, sem ter (ou tendo) a consciência da estupidez da sua proposta, sem saber qual cavalo te apetece de verdade, sem saber que no final das contas, se é que há um final, seu picadinho será motivo de piada.
De todas as coisas, você decide ser a uma-duas-nenhuma-todas-qual?-pode-ser-qualquer-uma-?-pode-nenhuma?-pode?
E aí a vida passa, passa, passa... passa como uma louca correndo pela avenida sem olhar pra trás.
E é engraçado, mas apesar dos olhos de vespa você nunca soube dizer com toda a certeza se essa louca é mesmo a tal da Vida de que te falaram a respeito ou se é só uma louca mesmo, porque você nunca soube dizer a diferença entre uma louca uma vida uma nuvem, mistério. Você nunca.

27.12.12

E quantas vezes ainda a gente vai ter que esperar as bordas da montanha congelada chegarem a um nível mastigável de textura?
A gente sente uma fome... uma fome assim perversa de comer coisa que não cabe na nossa boca.
E a gente já não tem mais dentes e nem nada... e a gente não tem nada mesmo além dessa fome.
(Mas um dia eu vou abrir minha barriga com uma faca e colocar você lá dentro.)